quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sobre ir embora.

Disse estar preparada para a mudança, mesmo sabendo de todas as saudades que sentirei. Mesmo sabendo que, dificilmente, conseguirei ao menos um abraço por dia, pelo menos nos primeiros dias, ou meses. Não um abraço abraço, com vontade de ser abraço.
Comecei a mudança devagar, aos poucos. Preparando-me. Mesmo que, hoje, alguém me diga que mudei, e muito. Mudei. E muito, sim. Mas ainda me mudarei (mais).
E, quando me mudar, sei que haverá uma grande mudança. Mas é isso: apenas sei. Não sinto. Ainda sentirei. E, talvez, o choro que hoje não vem - nunca vem - talvez, venha. E venha muito. E eu chore por tudo que deveria ter chorado, desde os meus três anos de idade, desde que tudo aconteceu e eu simplesmente parei de chorar.
Talvez, venham todos os choros. De uma vez só. E serão muitos.
Talvez, eu passe a comer muito, ou deixe de comer de vez. Talvez, eu passe a dormir muito, ou deixe de dormir de vez. Talvez, eu passe a telefonar sempre para alguns alguéns, ou talvez eu pare de telefonar de vez.
O tempo passa, tá acabando. Dependendo de hoje, ou, ainda, de amanhã, eu comece a preparar a minha mudança. Dessa vez, literalmente, materialmente. E, aí, quem sabe, dessa forma, eu separe os livros que valem a pena ser levados comigo, as roupas, os discos, os sonhos, as lembranças, os sentimentos.
O que não servir para levar junto a mim, ou que apenas não deva ser levado agora, ficará aqui, guardado. Não consigo jogar nada fora. Talvez, esse seja o meu maior defeito. Ou minha maior qualidade. Depende das circunstâncias. No fundo, sendo bom ou ruim, é o meu jeito de seguir. Sigo, mas guardo comigo o meu passado. Se não servir para mais nada, ainda poderá servir para me arrancar um bom riso - ou, quem sabe, uma boa lágrima - de saudade, num fim de tarde qualquer.

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