quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sobre a sujeira.

Tenho uma mania feia. Não que eu só tenha uma delas, mas essa, geralmente, é a mais feia de todas. E é a mais feia porque, aos bons olhos, não parece assim tão feia. Pobres bons olhos... Sempre veem aquilo que querem ver - ainda que não haja nada para ser visto.
Tenho mania de não falar, de esperar, de sentir que tudo dará sempre muito certo no final. Que tudo tem uma hora certa para acontecer e que só acontece porque acontece; porque deveria ter acontecido; porque no final tudo dá certo, oras. Justiça para os justos.
É uma mania feia porque tem mania de querer ser otimista. Mas não é otimismo. Ou, mesmo que seja, não é o otimismo propriamente dito. Não é por querer ver com os bons olhos. - Isso nada tem a ver com boa intenção - E sim por não querer enxergar, com os meus próprios olhos, aquilo o que é.
Abrir os olhos e enxergar necessita de muito mais força e coragem do que, de fato, ver. Porque é preciso coragem para ver algo que desagrada, e é preciso força para manter o olhar. Mas, mais do que isso, viver sempre às escuras com o dedo em cima do interruptor, à espera de algo - como se esse algo fosse vir - , e ter a coragem para ligar a luz, e ter força para perceber que, é, talvez não venha - isso necessita de muito mais. É preciso ter sangue, é preciso suor, é necessário ter amor.
Amor.
Amor... Por amor, a gente fecha os olhos. E, por amor, a gente os abre.
Talvez, o grande segredo do amor seja esse - saber a que horas, exatamente, deve-se abrir e fechar. Talvez por isso poucas pessoas sejam tão felizes. Talvez por isso eu não saiba amar.
E, talvez, por isso eu tenha uma mania feia.
Porque eu costumava fechar os olhos quando eles deveriam estar abertos. Até que abri, e, então, não consegui mais fechar. E, então, passei a sonhar - sim, porque a gente também precisa sonhar - com os olhos abertos. E, a partir do momento em que se sonha com os olhos abertos, não se tem mais noção do que é ou do que não é - apenas, talvez, do que devesse ser e do que será. E viver sem saber se se vive ou se se sonha ou se se imagina ou se se espera não é ter otimismo. É fechar os olhos. É ter uma mania feia, suja - sujíssima.

Que Deus me ajude a perceber que hoje é quarta - e um fim de quarta - e, até onde se sabe, ainda não foi possível afastar o sábado da quarta mais do que a distância que já existe entre eles o faz.

2 comentários:

A. disse...

Sonhei que lia seu blog e comentava aqui. Dai acordei e resolvi vim aqui e não me arrependi, veio a calhar pro meu momento... Eu tinha esquecido que se pode sonhar, tinha esquecido que existe gente que sonha... e não acho que seja uma mania feia. Você ao menos acredita que a solução de alguma forma virá e eu já acho que se não fizer algo ela não virá, o que resulta em um peso imenso sob minhas costas. Acho que tem a medida certa pra tudo... enfim!
Gostei do texto! =D

Saudades, Paliuta (L)

A. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.